Como o Povo Russo Recebeu a Trilogia ‘The Bronze Horseman’

Como todos sabemos, nenhuma nação gosta de se tornar pública aos olhos do mundo devido à uma ficção – especialmente uma ficção passada em uma época tão dolorida para o povo russo como o cerco à Leningrado durante a Segunda Guerra. Foi justamente enfrentando essa reação que Paullina Simons, nascida em Leningrado e que emigrou para os Estados Unidos aos 10 anos de idade, lançou seu livro, The Bronze Horseman que atingiu status de mais vendido em vários países como Estados Unidos, Austrália e tantos outros. O grande problema, porém, estava na Rússia. Como os russos iriam aceitar o livro em seu país? Como uma nação tão drasticamente atingida pelos horrores da guerra iria aceitar a sua versão dos fatos? Essa é uma dúvida que paira na mente de muitos fãs da trilogia de Paullina.

Estive pesquisando algumas coisas no fórum de fãs no site oficial da Paullina onde me deparei com a capa do livro em terras russas – uma capa estranha, sem nexo, que não te dá nenhuma informação da história. O mais estranho foi não ter achado os outros dois livros e ter lido reviews tão duras sobre o primeiro livro da trilogia. Continuei lendo e encontrei uma postagem de uma fã russa da trilogia, que mora em Moscou. Ela explicou o porque The Bronze Horseman não foi bem visto na terra de Tatiana Metanova e acabou dando uma pequena aula para os leitores do fórum.

Achei os comentários dela bem pertinentes e por isso decidi postá-lo para vocês.

A capa russa é tão horrivel quanto a tradução propriamente dita. A arte da tradução está decaindo cada dia mais… pelo menos para nós. Isso me faz tremer só de pensar no que iria acontecer com uma tradução Russa de The Summer Garden. Não, que Deus proiba isso de acontecer. Eu não iria sobreviver para ver um romance se transformando em um pornô.

Russo é uma língua muito travada. Ainda não existem noções decentes para certas partes do corpo humano, da mesma forma para o ato de se fazer amor. Ou para ser mais correta, a noção de ‘fazer amor’ existe sim (recentemente herdada de traduções de outras línguas Europeias) mas, ainda soa muito moderno tanto para as pessoas de Leningrado da década de 40 (eu tenho quase certeza que ele não usam essa noção e nem sabiam que existiam naquela época) e para os de Lazarevo (eu acho que os residentes da região de Perm ainda usam a línguagem obscena).

Então, as cenas de amor, especialmente aquelas mais ‘quentes’ acabam se tornando um grande desafio linguístico para o tradutor para que possa executá-las de uma forma na qual ela ainda pareça romântica. Mas atualmente quem quer pegar um trabalho complicado em uma tradução e receber o seu pagamento por página traduzida? Tradutores não são mais escritores…. Na USSR (pelo menos na época na qual eu já havia nascido) eles eram, querendo ou não… Por exemplo, eu juro por Deus que a tradução russa de E o Vento Levou é muito melhor que o livro original. Ainda existem muitas boas traduções (como por exemplo as dos livros de Rom Woolfe). Mas definitivamente não foi o caso de TBH. Atualmente um tradutor qualquer simplesmente escreve aquilo que ele enxergou logo abaixo da escrita do autor sem se preocupar em escolher as palavras para cada contexto, e  o resultado foi que ficou… vulgar. Em The Bronze Horseman as cenas e o livro em geral foram classificados como malfeitas e irritantes (pelo menos não foram chamadas de pornográficas, graças a Deus!)
Meu problema pessoal foi que na primeira vez que eu li a trilogia eu comecei por Tatiana & Alexander…. então eu já sabia como a linguagem da autora funcionava. A versão de The Bronze Horseman na Rússia esta indisponível atualmente (eles dizem que está em processo de reedição) então eu achei uma destas edições em russo mas depois de 100 páginas eu xinguei, larguei e pedi a versão italiana por intermédio de alguns amigos.

A opinião de todos é que The Bronze Horseman não é tão erótico quanto The Summer Garden. E eu estou suando frio na possibilidade de como será a tradução… por exemplo, do capítulo da despedida de solteiro.

De longe – e na minha opinião, é melhor não ler a tradução russa. Vai acabar com tudo.

Aqui está um dos grandes problemas da literatura em geral. São raras as exceções de tradutores e editoras que se preocupam muito mais com o texto, com a sua fluidez e beleza do que com o dinheiro. Com a ascensão das vendas de livros, o mercado literário se tornou um filão para ganhar dinheiro. O problema é que aqueles que realmente gostariam de apreciar a beleza de uma obra, ficam a ver navios.

Agora é só esperarmos pela versão brazuca de The Bronze Horseman!

And thanks to Mabelle for sharing this great story with us!

~Vivika 

2 pensamentos sobre “Como o Povo Russo Recebeu a Trilogia ‘The Bronze Horseman’

  1. Eu compreendo esse sentimento dos russos, especialmente sendo eles tão aficcionados pela boa leitura, seja prosa ou poesia. E não tenho a menor dúvida de que uma tradução digamos, sem espírito, possa arruinar com uma obra tão delicada, tão repleta de experiências emocionais como The Bronze Horseman. É uma pena que justamente os russos não possam apreciar essa obra da forma como tanto eles como os livros em si merecem.
    Torço para que as edições seguintes tenham mais tato com a tradução, que é absolutamente fundamental para legitimizar a obra e espero também que a mesma tenha o devido reconhecimento pelo povo russo.

  2. Caraca Vivika moitooo boa essa postagem!!!
    Como a Alê falou que contraditório que o povo não possa apreciar TBH na sua totalidade.
    Realmente o capítulo da despedida de solteiro traduzido grosseiramente será um fracasso total!!!😦

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